Drogas afastam mais de mil pessoas do trabalho em um ano

Publicado em:  09/05/2008

O uso abusivo de álcool, crack, cocaína, maconha, calmantes, estimulantes, morfina e outras drogas lícitas e ilícitas afastou pelo menos 1.640 funcionários do trabalho em empresas privadas de Curitiba e região metropolitana, no ano passado. A informação é do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O mal da dependência química atinge profissionais de todas as áreas, como médicos, advogados, jornalistas, publicitários e especialmente os caminhoneiros.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 4,7% da população mundial com idade acima de 15 anos sofre de algum tipo de dependência química – os dados são de 2001. Ou seja: o mundo tem cerca de 200 milhões de usuários de drogas.

 E o ritmo do mundo moderno fez da droga um remédio inadequado para o estresse, o excesso de trabalho e o próprio dia-a-dia de algumas profissões. Em outras, ela se tornou um estereótipo de quem exerce o ofício.

A Clínica Nova Esperança, especializada no assunto, já atendeu 462 advogados, 235 jornalistas, 162 médicos e outros 869 profissionais de saúde (psicólogos, enfermeiros, bioquímicos e farmacêuticos), além de centenas de funcionários de grandes empresas, como Banco do Brasil, Copel, Eletrobras, Petrobras e Sanepar.

Em 19 anos de atividades, a Nova Esperança atendeu 4.121 pacientes dependentes químicos, por alcoolismo, outros tipos de drogas e outros transtornos obsessivo-compulsivos, como comer e comprar demais.

Segundo a diretora da clínica, Aracélis Copedê, isto ocorre porque as pessoas que exercem profissões estressantes não sabem administrar o estado emocional. Ela explica que a dependência química tem a mesma raiz genética dos outros transtornos psicológicos. "O dependente químico pode apresentar os outros transtornos, como ser um jogador compulsivo, um comprador compulsivo, comer compulsivamente e gerar a anorexia nervosa e a bulimia – dois distúrbios alimentares", afirma Aracélis, que se interessou pelo tema a partir da sua experiência de alcoolista.

Ellen, nome fictício, 28 anos, publicitária, ainda é paciente da clínica. Ela viveu uma situação semelhante. Ficou internada 49 anos dias, após sofrer uma overdose, no ano passado. Usuária de cocaína, álcool e anfetaminas, ela chegou ao fundo do poço depois da separação. "Eu estava muito frágil quando os amigos me ofereceram cocaína. A droga passou a me dar segurança e energia para trabalhar", recordou.

A publicitária conta que também voltou ao mundo das drogas, após uma abstinência de 5 anos, por causa das amizades de trabalho. "Os colegas usam por glamour, estresse e na busca de criatividade", diz.

Hoje, Ellen trabalha no setor de comunicação da clínica, que emprega outros ex-pacientes, como o acadêmico de enfermagem Wilmar Rose Junior, 45 anos, que usou álcool dos 15 aos 35 anos.

Médicos

Num contexto bem diferente, médicos também estão usando drogas por causa da profissão. Em razão disto, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) criou há cerca de dois anos a sua comissão de saúde para tratar o mal que aflige a categoria.

Segundo o médico Marco Antonio Bessa, coordenador da comissão, vários fatores contribuem para o uso de drogas na profissão. Ele citou alguns exemplos. "O estilo de vida estressante, a carga horária muito alta, com muita responsabilidade e desgaste emocional. Há ainda a facilidade de acesso a calmantes e anfetaminas". Ele diz que a maioria dos médicos dependentes químicos usa drogas lícitas (álcool, tabaco, calmantes e anfetaminas).

Levantamento

No ano passado, o CRM divulgou um levantamento feito em 112 hospitais e clínicas do estado, que demonstrou que 79,5% das instituições têm médicos usuários ou dependentes de tabaco, álcool, calmantes, anfetaminas ou outras substâncias químicas. Segundo a pesquisa, o álcool e o tabaco são as drogas mais consumidas. Em seguida estão os anabolizantes, calmantes, anfetaminas, opióides, maconha, cocaína e crack.

Eletrosul tem programa de tratamento

A Eletrosul Centrais Elétricas S.A., empresa do setor elétrico que emprega 1.549 pessoas no Paraná e em outros três estados, tem um programa de prevenção e tratamento de dependentes químicos. Ele foi criado no ano de 1994, com o lema de investir para recuperar o funcionário, que, segundo a empresa, melhora o seu desempenho profissional após o tratamento.

O programa é voltado para funcionários e suas famílias (filhos e cônjuges), no sentido de informar e orientar sobre a doença – a dependência química. A Eletrosul não divulga os números de funcionários que fizeram o tratamento, mas informa que a maioria foi por uso abusivo de álcool. Segundo a enfermeira do trabalho da Eletrosul, Consuelo Coelho Haviaras, o número de casos de drogas ilícitas é reduzido, e fica bem abaixo das estatísticas mundiais.

Prevenção

Consuelo afirma que é mais importante investir na prevenção e no tratamento, uma vez que não há certeza que com a substituição do funcionário o problema vai acabar. "O próprio tratamento, a metodologia adotada, induz a pessoa a uma auto-análise para mudar a sua vida e melhorar a sua conduta e a participação social."

Ela diz ainda que nesses casos as recaídas representam até 70%, mas que na Eletrosul o porcentual é menos de 10%, por causa de todo o apoio oferecido, a ajuda dos colegas e a possibilidade de reinserção social. 

Oito dias na boléia

O ex-caminhoneiro Luizão, 51 anos, é um exemplo vivo de como uma profissão pode afetar a vida de uma pessoa e levá-la ao consumo de drogas. Luizão chegou a viajar durante oito dias sem encostar o caminhão para dormir, graças ao uso de rebite (estimulantes). A façanha, que se tornou rotina em seus 10 anos de estrada, lhe custou a saúde, o trabalho e acelerou a aposentadoria por invalidez, há cerca de 3 anos.

Segundo Luizão, "o rebite é muito usado por motorista que trabalham com cargas que têm entrega com horário previsto e para transportar cargas vivas. Nesses casos, o mais importante é o horário", afirma. Ele conta que o uso de estimulantes é muito comum e incentivado entre os caminhoneiros.


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