Alcoolismo leva União a gastar R$ 33,3 bilhões

Publicado em:  14/05/2008

Só o atendimento a dependentes consome R$ 36,8 mi

Alheios à batalha travada no Congresso entre o Ministério da Saúde e a indústria de bebidas alcóolicas sobre a lei seca nas estradas e a limitação da propaganda de bebidas, os 11 homens reunidos no grupo de psicoterapia voltado para pacientes do Programa de Apoio ao Alcoolismo do Hospital Universitário de Brasília (HUB) contam histórias semelhantes sobre o consumo compulsivo de bebidas alcoólicas. Pedro, 45 anos, (os nomes são fictícios) começou a beber regularmente aos 13 anos e aos 16 já não conseguia largar o hábito. Buscou tratamento depois que, bêbado, estourou o tímpano do filho de três anos com um tapa. Cristiano bebe desde os 12. Tenta parar há um ano, mas volta e meia se depara com uma recaída. Antônio também começou jovem, aos 13 anos, em festinhas no interior de Minas Gerais. Mas só passou a se comportar como viciado 20 anos depois, já casado, com filhos e morando em Brasília.

 

– Primeiro a bebida vinha junto com os amigos, era para fazer festa, mas depois ela servia para esquecer as contas para pagar, os problemas de casa, as aporrinhações do trabalho – contou Antônio em sua última sessão de psicoterapia.

Sete meses depois de chegar ao centro de tratamento de alcoolismo da Universidade de Brasília (UnB), considerou-se curado. É, no grupo, a exceção.

 

– A regra é o paciente tentar várias vezes até engatar no tratamento, que inclui remédios, atendimento psicológico e clínico – explica a psicóloga Isabel Cristina Reis, coordenadora do programa que segue o padrão do atendimento a pacientes de alcoolismo do Sistema Único de Saúde (SUS). Somados os gastos com o atendimento direto no tratamento de alcoolismo, a estrutura representou despesa de R$ 36,8 milhões aos cofres da União entre 2002 e 2006, de acordo com o Ministério da Saúde.

 

– E nem de longe isso representa o custo total do alcoolismo para o País – observa a especialista.

Segundo ela, faltam dados sobre o tratamento de doenças ligadas ao alcoolismo, em casos que chegam às áreas de cardiologia, neurologia e até dermatologia nos hospitais públicos. Uma estatística da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), dá uma idéia do impacto financeiro de acidentes rodoviários ligados ao consumo de álcool. O custo anual desses acidentes para os cofres públicos é da ordem de R$ 28 bilhões. Outros R$ 5,3 bilhões anuais são gastos na assistência às vítimas, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Metade dos envolvidos nessas ocorrências abusou do álcool.

 

– Até por falta de treinamento dos profissionais de saúde, de forma geral, são escassos os registros que relacionem essas doenças às ocorrências de alcoolismo. Assim como não existem estruturas capazes de detectar o problema em sua origem e ter uma atitude proativa do sistema público de saúde na prevenção à dependência do álcool. Ninguém registra o adolescente que exagerou na bebida durante a balada ou comunica o caso à família.

 

Também não há quem relacione os casos em que o jovem retorna ao Pronto Socorro com o mesmo quadro regularmente.

 


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