Livro traz perfil da saúde dos médicos do Brasil

Publicado em:  21/05/2008

 

Os médicos clamam por atenção e respeito. Há mais de uma década, o Conselho Federal de Medicina (CFM) vem alertando para esse aspecto, que pode, em si, comprometer o atendimento à saúde da população.

Nesse sentido, a publicação A saúde dos médicos do Brasil significa o primeiro esforço concreto, em âmbito nacional, de pesquisar a saúde daqueles que têm por função promover a saúde.

A obra é mais uma ação do CFM que, ampliando os horizontes e consolidando suas competências, procura retratar fielmente e compreender as realidades dos médicos brasileiros.

Assim, por intermédio de seu Centro de Pesquisas e Documentação (CPDOC), planejou e executou amplo estudo com 7.700 médicos de todo o Brasil, de diferentes cidades. Foram avaliados aspectos diversos, como estafa profissional, indicadores psiquiátricos (fadiga, depressão, ansiedade) , doenças relacionadas na Classificação Internacional de Doenças (CID-10 – última atualização), medicamentos utilizados e consumo e abuso de drogas psicotrópicas. E apontadas as precárias condições de trabalho, com jornadas extenuantes, multiplicidade de atividades, desgaste profissional e redução de salários.

Para o presidente do CFM, Edson de Oliveira Andrade, a pesquisa é o início de uma reflexão. "Não é preciso ir muito longe para constatar que os médicos estão em situação precária", ressalta.

O trabalho, desenvolvido por Edson Andrade, Genário Alves Barbosa, Mauro Carneiro, Munir Massud e Valdiney Veloso Gouveia, pode ser conferido no site do CFM: www.portalmedico.org.br.

 

A pesquisa "Saúde do Médico"

 

     Contrariando o imaginário popular, os médicos não são imunes às doenças prevalentes na população em geral. O coordenador do estudo, Genário Barbosa, explica que, com base na relação constante na CID-10, a pesquisa buscou conhecer as patologias mais freqüentes entre os médicos participantes – os quais, no momento em que respondiam ao questionário, foram inquiridos acerca da presença ou não de doença diagnosticada.  

     As doenças mais prevalentes foram as que incidem sobre os olhos (26,4%), seguidas pelas que acometem o sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (22,2%) e, finalmente, as que atingem o aparelho circulatório (21,8%). Doenças endócrinas, metabólicas e nutricionais (19,1%), bem como as enfermidades do aparelho digestivo (19,7%), também estão entre as mais freqüentes.  

     Os participantes da pesquisa foram indagados acerca do uso contínuo de algum medicamento sob recomendação médica. Responderam afirmativamente 1.302 entrevistados, que ainda indicaram os fármacos prescritos. Significativa parcela de médicos faz uso de dois ou três medicamentos e a média dos mesmos, por entrevistado, é de 1,5.

      Dos médicos que responderam à pesquisa, 7,7% disseram ser portadores de transtornos mentais ou comportamentais. Com relação ao uso de medicamentos, em geral receberam 416 prescrições de um total de 1.993, equivalente a 20,9%.

      O estudo tratou, ainda, do uso esporádico e/ou eventual ou regular de substâncias químicas, inclusive fármacos, capazes de alterar o humor, o pensamento e/ou as sensações. Para tanto, apresentou aos participantes uma lista com 15 grupos de substâncias.

 

Situação precária

 

     Na apresentação, às primeiras páginas, o presidente do CFM, Édson de Oliveira Andrade, pondera: "Os médicos estão em situação precária. Essa pesquisa permite que a categoria, as entidades de classe e os gestores de saúde possam refletir a respeito da saúde dos médicos e encontrar alternativas coletivas para os problemas por eles vivenciados".

 

     A pesquisa revelou um dado preocupante: distúrbios psiquiátricos, como ansiedade, depressão, além de estafa, afetam mais da metade dos médicos entrevistados. Também apontou um quadro de ideação suicida: "Em cada 100 médicos, cinco sentem-se sem esperança, infelizes e têm pensado em dar fim à própria vida".

 

     A publicação é dividida em capítulos com diversas abordagens sobre estresse, síndrome de Burnout, ideação suicida, drogas psicotrópicas e doenças orgânicas. O estudo relacionou as sete doenças/sintomatologias mais comuns entre os médicos entrevistados: dores lombares (21,6%), doenças do aparelho digestivo (18,9%), eczema crônico (14,3%), hipertensão (14%), distúrbios mentais (6,2%), artrose (6,9%) e asma (5%).

 

     Mostrou, também, que 60% a 80% dos entrevistados são dependentes de nicotina e revelou que 82,2% dos médicos exercem até três atividades em medicina.

 

     Dos entrevistados, 39,5% trabalham de 41 a 60 horas semanais, número bem superior ao padrão de um trabalhador contratado sob regime de CLT. "Há médicos que trabalham em cinco locais diferentes. Que lazer podem oferecer às suas famílias, se trabalham tantas horas por dia?", alerta o coordenador do CPDOC.

 

     A partir de uma amostra dos entrevistados, o livro traz informações quanto à formação profissional, religiosidade e sexualidade dos médicos – quase 40% referem diminuição da libido e cerca de 30% afirmam estar insatisfeitos com a vida sexual.

 

 

Médicos depressivos

De acordo com notícia publciada hoje (21) no jornal O Estado de S. Paulo, a pesquisa do Conselho Federal de Medicina (CFM) revela que 44% sofrem de depressão ou ansiedade e 57% têm estafa e desânimo com o emprego. A prevalência de distúrbios psíquicos nos médicos supera em quase 11 pontos porcentuais a incidência na população em geral.
Os índices de depressão em quem não tem diploma de Medicina é de 33,4%, apontou pesquisa internacional utilizada como referência pelo CFM. O autor da pesquisa, Genário Barbosa, pede políticas públicas específicas para a saúde dos médicos. Garantir a saúde do médico é garantir a saúde da população. É importante ser tratado por alguém em perfeitas condições psicológicas?, diz Barbosa.
Além da saúde mental, os problemas físicos dos médicos também são alarmantes. Um em cada cinco sofre de doenças cardíacas. A mesma parcela apresenta alterações no sistema circulatório e 21,8% convivem com o mau funcionamento do aparelho digestivo.
Os especialistas falam que uma das origens da ?medicina doente? é a falta de tempo dos médicos. Segundo o Sindicato dos Médicos de São Paulo, 82% dos profissionais atuam em três ou mais empregos.

 

 

 


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